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Animal de Estimação ou Parasita?

A Domesticação Canina e a Inversão dos Papéis

No passado, os cães não entravam em casa, dormiam fora e recebiam apenas restos de comida e água. Mas após anos de convivência, os laços afetivos entre pessoas e animais de estimação amplificaram-se, levando esses animais a serem considerados parte importante na vida das pessoas1.

Para Bruce Fogle2, o cão hoje é criado para fazer companhia e interagir com os membros da família. Outro estudo3  demonstra que a domesticação adaptou o cão ao homem, ou seja, os cães adquiriram riqueza fônica superior ao lobo, aprenderam a alimentar-se das mesmas coisas que nós e mudaram sua morfologia no tempo.

O latido do cão doméstico se desenvolveu durante a domesticação, uma vez que cães selvagens não latem. Os cães de estimação latem e dão ganido. Cães de trabalho só latem quando necessário. Os sons caninos são códigos: rosnar é um sinal de agressividade e o ganido um sinal de inquietação4.

Mas, Bruce Fogle2 questiona: porque recebemos em nossos lares um carnívoro?

Porque há a compreensão mútua. O cão desenvolveu a misteriosa habilidade de entender a partir de nossos gestos o que queremos. Para sustentar sua afirmativa ele explica:

“num experimento científico, no qual se escondeu comida sob uma vasilha, no total de duas, sem que nenhum cheiro fosse exalado. Grupos de chipanzés, lobos e cães jovens e adultos examinaram qual vasilha tinha comida, recebendo dicas dos humanos, que olhavam, apontavam para a vasilha correta, ou batiam levemente nela. Os cães e filhotes entenderam logo. Os lobos e chipanzés não. De alguma forma a evolução cerebral deu aos cães um habilidade de reação mais aguçada, entendendo dicas dos humanos que lobos e chipanzés não reconhecem. Esse tipo de habilidade é a chave para entendermos a força dos laços entre humanos e caninos.”

No entanto, para esse relacionamento quase perfeito dar certo, um detalhe precisa estar bem estabelecido: a hierarquia3. Deve ficar claro ao cão que o homem é o líder do grupo. E fazer isso deveria ser uma tarefa fácil pra nós, se formos analisar a superior inteligência quantitativa do homem, mas nem sempre é.

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Pense bem! É assim que seu cãozinho enxerga sua família? Ilustração do livro Adestramento Inteligente, Alexandre Rossi. Recomendo!

Então, porque meu cão seria um parasita?

Para Bruce Fogleseu cão é um verdadeiro parasita – se adapta para satisfazer a sua necessidade biológica de cuidar de outro ser. Nós gostamos da familiaridade, gostamos de prosperar. Nos tempos modernos, vivemos num mundo rápido e cheio de informações – distante da natureza. Esse mundo nos faz questionar a confiança no próximo e por isso a certeza de um olhar inocente, honesto, descomplicado de um cão nos faz bem. Por isso, cada vez mais precisamos do parasitismo do binômio cão-homem.

Esse mundo também nos distanciou do homem que executava as tarefas de sobrevivência com seu cão2. O homem se adaptou e entendeu o novo mundo, mas o seu cão não! Hoje, passamos horas no computador ou vendo tv e esquecemos-nos de dar um simples passeio com o nosso melhor amigo. E na maioria dos casos, esse cão passou o dia sozinho – assim começa a solidão canina.

A falta de atividade do cão

Essa falta de atividade mental e física, acompanhada de um ambiente sem estímulos, sem a liderança devida, pode trazer ao cão sérios problemas, desde ansiedade de separação até transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

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Destruição feitas por cães das portas e janelas nas rotas de acesso da figura vínculo5,6.

Como líder, o homem devia premiar as boas condutas e castigar a desobediência -sem usar da brutalidade, claro! Devia garantir a proteção do cão e a boa relação de convivência cheia de exercícios físicos3.

Às vezes, nós humanos, confundimos propiciar ao cão prazer e felicidade com prover a sobrevivência básica. Há uma enorme diferença nisso – por exemplo, há quatro itens básicos para que um cão sobreviva: comida, água, exercício e abrigo. Mas pra que ele tenha segurança, se sinta amado e bem inserido em sua matilha, mesmo que humana, é necessário muito mais. A lista inclui: companheirismo, socialização, treinamento, asseio, rotina e assistência veterinária7.

A vida ao lado do homem urbano não tem o menor estímulo para o cão. Por exemplo, em vez de ter que realizar esforço físico e mental para capturar uma presa e alimentar-se, o cão de estimação ganha um prato de comida sem fazer nada, ganha uma cama confortável, sem que seja necessário ele procurar onde abrigar-se8.

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Ilustração do livro Adestramento Inteligente, Alexandre Rossi. Recomendo!

As quatro paredes humanas reduzem sensivelmente a necessidade de usar os sentidos natos para se proteger dos predadores. As sonecas em sofás macios substituíram as caminhadas e situações de pastoreio e caçadas. O convívio com o homem moderno dá ao cão a solidão, a ansiedade e muitas outras desordens8.

Bruce Fogle2 explica que o comportamento do cão fortalece ou destrói os laços entre nós e eles. Os relacionamentos podem entrar em falência porque o homem não compreende que os problemas surgem pela simples falta de adestramento adequado. O adestramento é essencial para um cão – o que para nós significa uma obrigação, para eles o ato de receber adestramento significar lazer e reconhecimento do líder.

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O adestramento confere ao cão: confiança, respeito pelo líder, possibilidade de transitar em qualquer ambiente, melhora a conduta canina frente às visitas, estimula a mente e dá exercício extra ao cão. Com o avanço do treino, o cão poderá inclusive auxiliar na busca de objetos, chaves e correspondência. Geralmente o cão adestrado cresce feliz, bem ajustado e sociável7.

Uma vida canina num ambiente sem estímulos e exercícios adequados, pode trazer diversos desvios de comportamento, veja:

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Quadro descritivo dos desvios comportamentais caninos provocados por falta de estímulo ambiental e falta de liderança do homem.

Os desvios de comportamento prejudicam o bem-estar dos cães e donos, pois estão intimamente ligados ao sofrimento canino. Os problemas associados (destruição de pertences e queixas de vizinhos)  levam à rejeição, abandono e até eutanásia, devido ao excesso de agressividade1,daquele que um dia foi seu melhor amigo.

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Lambedura acral de uma das patas em virtude de comportamento compulsivo.

Bem, espero que você tenha entendido porque o adestramento é tão importante para o seu cão, seja ele um Westie ou qualquer outro.

Já conheci pessoas que não gostam e usar adestramento com reforço positivo afirmando que seus cães só farão comandos por interesse! Mas uma coisa você precisa aprender: CÃES SÃO INTERESSEIROS POR NATUREZA! Fazem tudo e mais alguma coisa pelo seu bem estar físico!

Nós também somos interesseiros, trabalhamos por dinheiro, comemos e fazemos sexo por prazer. E porque não aceitá-los assim?  Não tolero ouvir: “pow….mas ai o meu cão só vai sentar se eu der um petisco”…aff…que mal há nisso!? Quer que ele sente por que você parece um tonto mandado ele sentar? Vou contar um segredinho pra você: depois que eles sedimentam o comando, sentam sem petisco também, sempre na esperança de ganhar algo! E não pense que um cão deixará de ser seu amigo porque você não deu o petisco – cães não guardam mágoa!

Outra máxima: “ainn o meu cão vai virar um macaquinho de circo?” …oi? E se você tiver numa praça e precisar mandar ele sentar porque avistou uma criança passando e com medo do seu cão? Não é conveniente que ele saiba o que é sentar? O adestramento é escolinha da construção da sua comunicação com o seu cão!

Outro dia eu estava no veterinário com o Odim, avistei um cão pequenino caminhando na minha direção. Como terriers podem muito bem ver bichinhos pequenos como presas fáceis, falei o comando senta. Ele obedeceu. A pessoa do meu lado admirou-se: “aaaaiiii…ele sabe sentar né? ooohhh…como você ensina isso?” …nesse momento já olho com aquele sorriso amarelo. Poxa, a pessoa está num veterinário com um cão e nunca quis saber como faz para ensiná-lo a sentar? Chego a pensar que a toupeira foi consultar a si própria.

No próximo post: Porque os cães adquirem doenças mentais.

FONTES

1. SILVA, Lígia Henz. Ansiedade de separação em cães e gatos – Revisão de literatura. [Monografia] Universidade Federal do Semi Árido, 2009

2. FOGLE, Bruce. Guia Ilustrado Zahar: cães. [trad.] Bianca Bold. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009

3. BUDIANSKY, Stephen. The Truth About Dogs. The Atlantic Monthly, vol. 284, no 1, p. 39-53, 1999

4. TEIXEIRA, Eduardo de Souza. Criação de cães, São Paulo: Nobel, 2001

5. SHERMAN, Barbara L. Separation Anxiety in Dogs, Understanding Behavior – Compendium Vet. Janeiro, 2008

6. CORRÊA, Pablo Maghelly. Teste de supressão pela dexametasona em cães (Canis familiaris) com distúrbios comportamentais. [Dissertação de Mestrado], Universidade Federal Rural do Rio De Janeiro, 2008

7. McHUGH, Andrea. Como fazer seu cachorro feliz. [trad.] Luiz Roberto Mendes Gonçalves, São Paulo: Larousse, 2008

8. PENACCHI, Marcos. Ideias para deixar o cão mais feliz, Revista Caes & Cia, edição 362, p. 32, 2009

9. MCCRAVE, E.A. Diagnostic criteria for separation anxiety in dog. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, vol. 21, p. 247-256, 1991

10. OVERALL, K.L. Clinical behavioral medicine for small animals, St. Louis: Mosby – Year Book, p. 544, 1997

11. KING, J.N., et al. Treatment of separation anxiety in dogs with clomipramine: results from a prospective, randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, multicenter clinical trial. Applied Animal Behaviour Science, abril, vol. 67, no 4, p. 255-275, 2000

12. BEAVER, B.V. Comportamento canino: um guia para veterinários. São Paulo: Roca, 431 p. 2004

13. APPLEBY, D. & PLUIJMAKERS, J. Separation anxiety in dogs: the function of homeostasis in its development and treatment. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, vol. 33, no 2, p.321-344, 2003

14. SCHWARTZ, S. Separation anxiety syndrome in dogs and cats, Journal of American Veterinary Medical Association, vol. 222, no 11, p. 1526-1532, 2003

15. LANDSBERG, Gary M., HUNTHAUSEN, W and ACKERMAN, Laurence. Problemas Comportamentais do Cão e do Gato. São Paulo: Roca, 492 p., 2004

16. PENACCHI, Marcos. Mitos e Verdades – O Beagle é…, Revista Cães & Cia, edição 381, p. 24, 2011

17. BARRETO, André. Como gastar o excesso de energia do seu cão. Conteúdo Animal. Acessado em: abril 2011, 29. Disponível em: http://www.conteudoanimal.com.br/colunas. 2000

This Post Has 3 Comments

  1. Obrigada Mega, por ser um cãozinho tão especial!!! Rs
    Obrigada Andréia por me preparar para mantê-lo assim!!!
    E… graças ao post… já escolhi minha próxima leitura!!!!!

    1. Mas o Mega dá nó em pingo d’água não é não? Pelo menos ele tenta né? Pq já conseguiu aprender a abrir a torneira…kkkkkk….ri muito imaginando ele no ataque ao cajus….e vc não sabe pq ele tá gordo? hahahahaha…eu me amarro nessa história de vcs! Vamos contá-la no blog! Já disse isso né?

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