skip to Main Content

Porque a mente do cão adoece?

Erros na educação do cão

Um estudo1 sobre Síndrome da Ansiedade de Separação (SAS) em cães, descobriu que mais de 30% dos cães saudáveis tinham sido treinados para obediência. Cães treinados2 possuem menor probabilidade de apresentar problemas comportamentais.

A forma como os cães são punidos também conta – 70% dos cães doentes receberam punições verbais incorretas em seu processo de educação1. Para um cão, a punição verbal aplicada de forma meiga pode significar uma recompensa, a atenção de seu dono. Segundo Alexandre Rossi3, cães não entendem frases humanas, mas são extremamente sensíveis à entonação de voz do dono.

cao-bronca

Esse cara me ama! Ilustração do livro de Alexandre Rossi.

Assim, conclui-se que a falta de educação correta e consciente é um fator predisponente para problemas comportamentais.

Relação ser humano-animal e hipervinculação

A maioria dos animais com problemas vivem em apartamentos de áreas urbanas1. Além dos problemas comportamentais, eles desenvolvem uma ligação estreita com o dono4 e a essa ligação damos o nome de hipervinculação5.

Para um animal com hipervinculação6, é necessário manter a pessoa vínculo continuamente dentro do seu campo de visão e assim, o cão segue-o por todos os lugares da casa. Cães ansiosos e que sempre conseguem sucesso quando solicitam atenção, são bastante sensíveis às alterações ambientais e nem sempre a adição de outro animal de estimação no convívio diminui os sinais de ansiedade de separação4.

Na ausência da figura vínculo, o cão torna-se ansioso e apreensivo, apresenta ganidos, procura atenção ou se coloca imóvel. Às vezes fica triste ou deprimido – não aceitam petiscos e apresenta vômito, taquicardia, sialorréia e fica ofegante4. Esses sinais podem ocorrer quando o dono pega a chave do carro, veste um casaco ou pega uma maleta pra sair6.

Quando a figura vínculo retorna, o cão fica extremamente excitado por longos períodos, saudando o dono, saltando e vocalizando durante 10 minutos ou mais. Frequentemente, as figuras vínculos exacerbam esse comportamento cedendo atenção ao cão no retorno, ou seja, recompensando-o indevidamente4.

Um estudo observou que cães criados por um casal como se fossem um filho eram mais doentes7, e que aqueles criados em casas onde haviam crianças se tornam mais saudáveis8.

Assim como, cães que dormem nas camas ou sofás dos humanos7, tendem a ser mais doentes do que aqueles que possuem sua própria cesta ou outro refúgio de dormir – a cesta parece dar um sentimento de proteção ao cão. Alexandre Rossi9 complementa que na natureza, o cão em matilha ou até mesmo um cão doente se refugiaria em tocas para se proteger.

Este mesmo estudo, constatou que 35% dos cães afetados tinham comida continuamente à disposição7.  A oferta de comida em rotina permite a percepção da hierarquia entre o cão e seu proprietário4.

A hipervinculação é uma característica da relação do binômio humano-cão que complica o tratamento por envolver o emocional do proprietário. Por isso não existe o tratamento do cão se o envolvimento de seu dono.

Doença por trauma

Às vezes a causa da doença mental canina pode se desenvolver associada a um evento traumatizante, como um incêndio ou assalto. Cães nessas situações podem apresentar sintomas piores que aqueles cães que desenvolveram a doença de forma gradual.  Esses casos devem ser acompanhados de tratamento medicamentoso combinado com modificação comportamental10.

Raça e sexo

Acredita-se a genética influencie a formação de níveis de neurotransmissores e/ou interfira na eficiência de seus receptores no sistema nervoso central (SNC), causando o surgimento doenças mentais nos cães1, ou seja, cães com desvio de comportamento geram cães com desvio de comportamento. Raças puras, que desenvolveram algum tipo de trabalho no passado (caça à tiro, por exemplo), são mais predisponentes1.

Mas devemos lembrar que a predominância de raças nos estudos estão associadas à modismos e distribuição delas na região estudada2. Porém, de forma geral, pode-se concluir que as raças que foram originalmente criadas para desempenhar um trabalho, tais como caça e farejo, se tornam mais estressados sem a atividade mental, pois elas naturalmente usariam essa energia extra desempenhando tais funções.

imageBeagle, uma raça desenvolvida para caça após uma tarde sem estímulos. Note o brinquedo dele intocado largado embaixo do sofá12.

Interação com o proprietário

A interatividade com o dono foi medida em dois parâmetros: a rotina de passeios e a interação mínima desejável. A interação mínima desejável era medida com: quantidade brincadeiras/escovações diárias ou quatro passeios diários de 20 minutos. O estudo observou que o grupo de cães que passeavam diariamente era menos acometido que grupo de animais que não interagia tanto com o dono11.

Acho que ficou muito claro que nossos cães não apresentam “comportamentos indesejados” à toa. No mínimo, eu diria, que eles correspondem à nossa falta de conhecimento sobre o seu mundo e às suas características natas. Estimulá-las deveria ser  nossa obrigação. No entanto, vejo que muito donos estão preocupados apenas em comprar a roupinha mais chique, o lacinho mais brilhante. Como se cães precisassem disso! Pergunte a esses donos quando foi a ultima vez que seu cão cavou um jardim, rolou na praia ou correu atrás de um passarinho – você verá uma cara de espanto!

Pra esse donos eu recomendo o livro de César Milan, O encantador de cães, que ensina que, manter um nível elevado de exercícios, praticar a disciplina e dar apenas uma pitadinha de amor, NESSA ORDEM E QUANTIDADE, faz um bem danado à saúde mental de nossos companheiros.

FONTES:

  1. TAKEUCHI, Y, et al. Differences in background and outcome of three behavioral problems of dogs, Applied Animal Behaviour Science, vol. 70, no 4, p. 297-308, 200
  2. BEAVER, B.V. Comportamento canino: um guia para veterinários. São Paulo: Roca, 431 p. 2004
  3. ROSSI, Alexandre. Adestramento Inteligente. São Paulo: Saraiva, 2009
  4. HORWITZ, D.F. Separation – Related Problems in Dogs. In: D.F. HORWITZ, D. MILLS and S. HEATH, BSAVA Manual of Canine and Feline Behavioural Medicine. Gloucester : Wiley and Sons, 2002
  5. KING, J.N. Pharmacological management of separation anxiety. Information Service. Acessado em: abril, 2011. Disponível em: <http://www.ivis.org/advances/Behavior_Houpt/king/ivis.pdf>, 2000
  6. LANDSBERG, Gary M., HUNTHAUSEN, W and ACKERMAN, Laurence. Problemas Comportamentais do Cão e do Gato. São Paulo: Roca, 492 p., 2004
  7. RIVA, J., et al. Anxiety related behavioural disorders and neurotransmitters in dogs. Applied Animal Behaviour Science, vol. 114, p. 168-181, 2008
  8. Flannigan (2004)
  9. ROSSI, Alexandre. Do lobo ao cão doméstico. Revista Cães & Cia, edição 318, novembro 2005
  10. OVERALL, K.L. Animals – In Evaluation and Management of Behavioral Conditions, International Veterinary Information Service. 2001
  11. SOARES, Guilherme Marques; PEREIRA, João Telhado & PAIXÃO, Rita Leal.Estudo exploratório da síndrome de ansiedade de separação em cães de apartamento, Ciência Rural, Santa Maria, v.40, n.3, p.548-553, mar, 2010.
  12. PENACCHI, Marcos. Mitos e Verdades – O Beagle é…, Revista Cães & Cia, edição 381, p. 24, 2011

 

This Post Has 4 Comments

  1. É gente… Às vezes agimos errado achando que estamos fazendo o certo. Comecei a perceber um início de hipervinculação do meu Nico (west) comigo. Ma,s pra eu saber o que significava isso e o que estava fazendo de errado, foi preciso ele morder (mesmo que superficialmente) o meu marido, que ele adora, por achar que estaria me protegendo. Coisas que ele fazia, dando sinais do problema, eu achava engraçado e bonitinho por falta de conhecimento. Mas nunca é tarde para mudar e o bom foi que percebi logo no começo, com a ajuda da minha Amiga Andréia, lógico rs. Por incrível que pareça, já notei melhoras no comportamento dele no primeiro dia do que eu chamo de “terapia”, que na verdade são as mudanças no meu modo de agir com ele, que não é nada fácil. Vontade de agarrar e beijar o nosso peludo temos toda hora. De um dia para o outro, mudar essas atidudes, é uma dura batalha que precisamos enfrentar dia-a-dia. Às vezes consigo, às vezes “caio na tentação”, mas tenho certeza de que conseguirei contornar esse problema, para o bem do meu branquelo.

    1. Oh Lu, claro que vocês vão conseguir! Eu vou te dar um west de pelúcia pra vc apertar muito quando tiver carente tá? rsrs…brincadeira! Mas vc não precisa deixar de dar carinho e amassos nele…apenas dê quando ele não estiver esperando e quando não tiver seduzindo você 🙂 ..me mantenha informada sobre a terapia a pulso de Niko ok? Um beijo em vcs!

    1. Hauhauahauah…..não! Faz tempo que escrevi! Ele é da base de pesquisas que fiz pro meu TFG de arquitetura que é um Re-rab canino….rsrsrs….acho que precisam ler a peça completa hauahauahuaha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close search
Carrinho
Back To Top
Send this to a friend